A ansiedade virou uma das queixas mais comuns nos consultórios, e talvez uma das experiências mais conhecidas da vida contemporânea. Coração acelerado, pensamento que não para, aquela sensação de aperto no peito e a cabeça correndo para um futuro que ainda nem chegou. Se você convive com isso, sabe que poucas coisas são tão cansativas quanto antecipar o tempo todo aquilo que talvez nem aconteça.

A Gestalt-Terapia tem uma forma própria, e bastante interessante, de olhar para a ansiedade. Em vez de tratá-la apenas como um defeito a ser eliminado, ela busca entender o que essa experiência está tentando dizer. Este texto é uma tentativa de explicar esse olhar e como ele se traduz no trabalho terapêutico.

A ansiedade como excitação que não encontra saída

Uma das formulações mais conhecidas vem do próprio criador da abordagem, Frederick Perls. Para ele, a ansiedade é, na origem, excitação — energia vital. É a mesma energia que nos move em direção àquilo de que precisamos, ao contato, à ação. O problema é o que acontece quando essa energia não encontra um caminho para se expressar.

Quando a excitação fica contida, sem virar movimento, sem se transformar em ação no mundo, ela não desaparece. Ela se acumula, se contrai no corpo, e é justamente essa contenção que vivemos como ansiedade. Perls observava isso de um jeito bem concreto: a respiração que trava, o peito que aperta, a musculatura que se enrijece. Não é à toa que tantas crises de ansiedade começam pela respiração curta e presa. O corpo está segurando algo que pediria passagem.

A ansiedade não é o oposto da vitalidade. Ela é vitalidade represada. Energia que quer ir a algum lugar e não está conseguindo.

A tensão entre o agora e o depois

Perls tem uma definição que ficou célebre e que vale ser lembrada quase ao pé da letra: a ansiedade é a tensão entre o agora e o depois. É aquele vão entre o momento presente e um futuro imaginado, geralmente preenchido com previsões, expectativas e ensaios de catástrofe.

Repare no que isso revela. A pessoa ansiosa parece muito conectada ao futuro, mas, na visão gestáltica, ela está justamente fora de contato com o presente. Ela vive no "lá e então", e não no "aqui e agora". E como o contato real — com as pessoas, com o ambiente, consigo mesma — só pode acontecer no presente, a ansiedade acaba funcionando como uma forma de não-contato. Por mais que pareça uma ligação intensa com o que está por vir, é uma maneira de não estar inteiramente aqui.

Daí a frase de Perls que sintetiza tudo: se você está plenamente no agora, não há como estar ansioso, porque a excitação flui de imediato em ação espontânea. Não se trata de uma promessa mágica de eliminar a ansiedade, mas de uma pista sobre onde ela mora: no descompasso entre o que sentimos agora e o futuro que antecipamos.

A ansiedade no ciclo do contato

A Gestalt entende a experiência saudável como um fluxo: percebemos uma sensação, ela ganha forma e vira consciência, mobilizamos energia, agimos, entramos em contato com aquilo de que precisávamos e, depois, nos retiramos satisfeitos. É o chamado ciclo do contato.

A ansiedade costuma indicar uma interrupção nesse fluxo. A energia se mobiliza, o corpo se prepara para agir, mas a ação não acontece — ou porque algo a impede, ou porque a pessoa nem chega a se dar conta do que realmente precisa. A excitação que deveria virar movimento fica girando em falso, sem destino. É como pisar no acelerador com o freio de mão puxado: o motor ruge, mas o carro não anda, e o desgaste é enorme.

Por isso, na escuta gestáltica, mais do que perguntar "como faço para a ansiedade ir embora?", o terapeuta se interessa por outra coisa: o que essa energia está tentando fazer? Para onde ela quer ir? O que está sendo barrado no caminho?

O que muda no trabalho terapêutico

Esse olhar muda bastante a forma de trabalhar a demanda. Algumas direções costumam aparecer ao longo do processo.

Uma postura de acolhimento, não de combate

Talvez a diferença mais importante esteja no tom de fundo. A Gestalt não declara guerra à ansiedade. Não a trata como inimiga a ser silenciada o quanto antes. Ela parte de uma pergunta mais gentil e mais curiosa: o que essa experiência está tentando me mostrar?

Isso não significa romantizar o sofrimento. A ansiedade dói, atrapalha, esgota, e merece cuidado de verdade. Mas há uma diferença grande entre cuidar de algo e brigar com algo. Quando paramos de tratar a ansiedade apenas como um interruptor a ser desligado e passamos a escutá-la como um sinal — frequentemente o sinal de uma energia viva que ficou sem caminho — abre-se um espaço diferente. Um espaço onde a pessoa pode, no seu próprio tempo, voltar a respirar, voltar ao presente e voltar a se mover.

E é aí que o trabalho terapêutico encontra seu sentido. Não em prometer uma vida sem ansiedade alguma, mas em ajudar a pessoa a recuperar o contato consigo mesma e com o mundo, de modo que a energia que hoje a aperta possa, aos poucos, voltar a ser o que sempre foi na origem: força para viver.

Se algo neste texto ressoou com o que você vive, talvez seja um bom começo de conversa. Procurar ajuda não é sinal de fraqueza, e sim um modo de voltar a se mover.

Para quem quiser se aprofundar

  • Perls, F. A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia. Rio de Janeiro: Zahar/LTC. (Onde Perls discute a ansiedade como tensão entre o agora e o depois.)
  • Yontef, G. M. Processo, Diálogo e Awareness: Ensaios em Gestalt-Terapia. São Paulo: Summus.
  • Ribeiro, J. P. O Ciclo do Contato: Temas Básicos na Abordagem Gestáltica. São Paulo: Summus.