Boa parte do que nos faz sofrer, e também boa parte do que dá sentido à vida, acontece nos relacionamentos. A relação com o parceiro ou a parceira, com a família, com os amigos, com quem trabalhamos. É raro alguém chegar à terapia sem que, mais cedo ou mais tarde, o assunto dos vínculos apareça. Brigas que se repetem, distância que incomoda, a dificuldade de dizer o que sente, o medo de se aproximar ou o medo de se perder no outro.

A Gestalt-Terapia tem um interesse especial por esse tema, porque o relacionamento não é só mais um assunto para ela. É, de certo modo, o assunto. Este texto é uma tentativa de explicar por que, e como esse olhar pode ajudar quem sofre nas próprias relações.

Somos seres de relação

A Gestalt parte de uma ideia que parece simples, mas tem consequências profundas: não existe ser humano isolado. Não faz muito sentido pensar uma pessoa separada do mundo em que vive. Existimos sempre em relação, num campo de trocas constantes com o ambiente e com os outros.

Por isso a abordagem não coloca o foco nem só dentro da pessoa, nem só no ambiente, mas justamente no encontro entre os dois. Quando você sofre num relacionamento, a Gestalt não pergunta apenas "o que há de errado com você?" ou "o que há de errado com o outro?". Ela olha para o que se passa entre vocês. Para a qualidade desse contato.

Não é à toa que a Gestalt-Terapia já foi chamada de "a terapia do contato". O contato — esse processo de se aproximar do outro e também de se diferenciar dele — está no centro de tudo o que ela compreende sobre relações.

A fronteira de contato: onde o encontro acontece

Aqui entra um conceito bonito e útil: a fronteira de contato. Apesar do nome, não se trata de um muro nem de um lugar fixo. É o ponto vivo onde eu encontro o que não sou eu. Onde o "eu" toca o "você". É na fronteira que o contato de fato acontece.

Uma fronteira saudável tem duas qualidades ao mesmo tempo, e é a combinação delas que faz a diferença. Ela separa o suficiente para que eu continue sendo eu, com meus desejos, meus limites, minha forma de ver as coisas. E ela é permeável o bastante para que eu possa, de verdade, me encontrar com o outro, me deixar tocar, trocar, ser afetado.

Quando essa fronteira se desregula, os relacionamentos sofrem. E a Gestalt descreve algumas formas típicas em que isso acontece.

Quando a fronteira perde o equilíbrio

Vale dizer: nenhum desses movimentos é, em si, uma doença. Todos já foram, em algum momento, uma forma de se proteger ou de se adaptar. O problema aparece quando enrijecem e passam a ser o único jeito possível de se relacionar.

O encontro como lugar de transformação

Existe uma dimensão da Gestalt que toca o coração do tema dos relacionamentos: a chamada relação dialógica, fortemente inspirada no filósofo Martin Buber e na ideia do encontro entre o "Eu" e o "Tu".

Quando há encontro verdadeiro, eu me transformo e o outro também se transforma. Nos transformamos no contato, naquilo que acontece no "entre".

Laura Perls, uma das fundadoras da abordagem ao lado de Fritz Perls, considerava essa relação dialógica o eixo central da Gestalt-Terapia. Não nos transformamos sozinhos, num quarto fechado, apenas pensando sobre nós mesmos. Nos transformamos no contato, naquilo que acontece no "entre", quando duas pessoas estão de fato presentes uma para a outra.

Gary Yontef descreve esse encontro como o momento em que uma pessoa se deixa impactar pela outra em sua totalidade — em que o interesse de ambas está no que se passa entre elas. É uma definição que serve tanto para a relação terapêutica quanto, no fundo, para qualquer relação que nos importe de verdade.

Como a terapia pode ajudar nas relações

Uma palavra final

A Gestalt-Terapia não promete relacionamentos sem atrito, nem fórmulas para o amor perfeito. O que ela oferece é outra coisa, e talvez mais valiosa: um espaço para você compreender como se relaciona, recuperar o contato consigo mesmo e, a partir daí, encontrar formas mais vivas e mais verdadeiras de estar com os outros.

No fundo, há um acolhimento nessa proposta. Em vez de buscar culpados, ela convida a olhar com cuidado para o que acontece no espaço entre as pessoas — e a confiar que, quando esse espaço se abre, algo pode se transformar, para você e para quem está com você. Se algo neste texto tocou alguma relação sua, talvez seja um bom começo de conversa.

Para quem quiser se aprofundar

  • Perls, F.; Hefferline, R.; Goodman, P. Gestalt-Terapia. São Paulo: Summus. (Onde se desenvolve a noção de self como fronteira de contato em funcionamento.)
  • Polster, E.; Polster, M. Gestalt-Terapia Integrada. São Paulo: Summus.
  • Yontef, G. M. Processo, Diálogo e Awareness: Ensaios em Gestalt-Terapia. São Paulo: Summus.
  • Buber, M. Eu e Tu. São Paulo: Centauro. (Base filosófica da relação dialógica.)